O Sacrifício do Mestre Montanhês — Amostra Gratuita

Judite deve salvar a Montanha para salvar os Homens

Capa O Sacrifício do Mestre Montanhês
Capa O Sacrifício do Mestre Montanhês, por Paulo Moreira.

Sinopse

“Salve a montanha. Salve a vila.”

As palavras ecoam nos sonhos de Judite, pedindo para que ela salve Mata Branca, uma vila antes afligida pela seca, mas que agora goza de chuva e verdor. Para tanto, precisa consertar o desequilíbrio da montanha, um refúgio enevoado cheio de animais e luminantes.

Confiando em suas habilidades místicas, Judite parte sozinha à montanha. Mas o lugar não é tão seguro quanto aparenta. Árvores prendem crianças desavisadas em seus troncos. Uma criatura de olhos famintos está sempre à espreita, camuflada na neblina.

Além disso, resolver o desequilíbrio climático trará de volta os terríveis anos de seca de Mata Branca. Nem todos estão dispostos a aceitar tal tragédia. Será que Judite conseguirá cumprir sua missão, ou pelo menos sair viva da montanha?

Inspirado em Mushishi, O Sacrifício do Mestre Montanhês explora como o ser humano modifica a natureza em prol da sobrevivência. As descrições vívidas da fauna e flora na estação chuvosa adicionam ainda mais magia ao conto, nos encantando com a riqueza da caatinga nordestina.

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Todos os direitos de O Sacrifício do Mestre Montanhês reservados a Paulo Rogério Moreira da Silva, 2022.

Arte da Capa: Paulo Rogério Moreira da Silva, 2022.

Essa é uma obra de ficção. Nomes, personagens, organizações, lugares e situações são frutos da imaginação deste autor ou usados como ficção.

Qualquer semelhança com a realidade ou fatos reais é mera coincidência.
Todos os direitos reservados.

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A chuva estala nas águas barrentas do rio e na pele barrenta de duas meninas nuas que saltitam nas margens. Quero imitá-las, tirar a capa pesada das costas e a maleta de madeira das mãos, tirar o peso da viagem e juntar-me às brincadeiras à beira do rio. Saltitar como rã emergindo da lama. Zedo me convenceria a isso. Mas na montanha à frente a neblina de Mata Branca se arrasta sobre o verde das árvores, uma cauda felpuda de um gato albino, sinal de que as gotas da chuva irão se esfriar ainda mais. Não que isso seja o suficiente para tirar aquelas meninas da chuva, mas é para mim, de meia idade, com os cabelos começando a tomar a cor da neblina e as juntas inflamando-se a cada queda de temperatura.

Então firmo a maleta em meus dedos escorregadios e continuo andando, rezando para o incenso ali dentro não se encharcar. Direto para Mata Branca, a vila ao lado do rio sem nome porque só surge no inverno, para a montanha sem nome cujas névoas só surgem no inverno, para salvar a montanha, salvar a vila. É isso o que meus sonhos me dizem. Não que eu confie em todos os sonhos, não se deve, mas mariposas devem averiguar acontecimentos estranhos, e sonhos repetidos indicando um lugar real, implorando por socorro, é uma coisa estranha que deve ser averiguada. Talvez seja um mestre precisando de ajuda.

O rio sem nome ruge enquanto os ovos dos peixes eclodem em seu leito e os lampreanos faíscam no ar cinzento. Zedo me falou desses tipos de rios, que só surgem no inverno e dão vida a um monte de peixes que nem me recordo os nomes. Foi quando lhe falei de meus sonhos. Numa noite, uma montanha verde ao lado do rio de barro. Noutra, uma montanha seca ao lado do leito seco. As mesmas palavras masculinas e ofegantes. Salve a montanha, salve a vila. As imagens foram tão claras para ele que nem pareciam ter vindo de um sonho. É Mata Branca, onde Zedo nascera e crescera, na região que conhecia apenas chuva e sol como estações, onde ele via a montanha enverdecer a todo inverno, a neblina se esgueirar pelos umbuzeiros e catingueiras, onde plantara feijão, fava e milho nas primeiras chuvas e enfiara seu corpo barrento na água barrenta do rio a cada chuvarada. Zedo era a melhor pessoa para estar ali.

Mas não foi ele quem sonhou. O chamado era para mim. Eu tinha que vir. E mariposas não devem trabalhar juntas. Não quando se amam.
É encantador como sempre que eu o deixo, tudo me lembra ele. Zedo. Meu amigo mais jovem que recusou ser amante. Eu o vejo na pele barrenta das crianças, nos peixinhos eclodindo no rio temporário, na alegria da chuva cada vez mais gelada.

Zedo.

Tínhamos discutido em nosso último encontro. As meninas barrentas me lembraram disso. Discutido não é bem a palavra. Discordado. Ele não era a favor de crianças estudando no mosteiro, queria que só virassem mariposas após os dezesseis.

— Crianças não vão salvar o mundo. Devem brincar. É assim que elas aprendem. É assim que elas se comportam. A gente é que precisa salvar o mundo por elas, pra elas. Daqui a pouco vão querer crianças votando no conselho. O mestre Rafaelo ganharia de lavada com seus pães de queijo!

Para alguém que tinha crescido brincando na lama e na chuva como Zedo, fazia sentido. Mas eu senti que não concordava, que suas palavras eram conservadoras demais. E como sempre, ficou faltando alguma coisa para falar, algo que perdeu o caminho em minha garganta, fez um nó com minhas cordas vocais. Algo que nem eu sabia ao certo o que era.

Zedo. Sempre tirando minhas palavras. Era irritante. E adorável.

Sigo o ritmo oposto da correnteza e deixo os lampreanos luminosos para trás, a montanha enevoada sempre à minha frente. Não parece que a neblina me alcançará no fim das contas, se limitando às plantações de milho ao redor da vila como se as lamparinas douradas nas janelas a afastasse. E a chuva, embora gélida, vai diminuindo conforme eu me aproximo das casas. Graças aos trinantes, um raio vermelho do sol já fatia o roxo das nuvens no poente. As gotas descansam nos galhos dos milheiros como joaninhas de vidro.

Zedo me recomendou uma pousada com um baobá na entrada, o único da vila. Era a pousada da Dona Marila, que dava uma festa toda noite de quinta-feira, com forró, fubá e farofa de graça para quem quisesse se reunir sob os galhos do baobá. Eu não podia perder algo assim.

Graças aos muruínos que cansam os meus pés, já é sexta-feira.

Quem me recebe na pousada não é a Dona Marila, ou o Seu Antone, seu marido — que Zedo não sabia que tinha morrido — , mas seus filhos gêmeos, adolescentes de no máximo dezesseis anos, eu suponho. Eles me guiam por um corredor com quadros de vaquejada nas paredes amarelas. Querem saber como foi minha viagem e o que uma mariposa pretende ali, como sempre querem, e eu, como sempre, respondo que são apenas assuntos banais do mosteiro, nada que devam se preocupar, que nem eu faria muita questão de estar ali com uma idade avançada como a minha e que sairei logo. Uma semana no máximo. Eles sorriem um para o outro quando menciono a saída e me deixam em paz em meu quarto, onde penduro a capa encharcada na janela aberta à luz de Órion.

A lua crescente já está bem gorda, ainda assim o verde da montanha se queima de preto.

Abro a maleta de madeira e acendo dois incensos de capim-santo. Repouso-os num prato de barro. Jogo meu corpo exausto na cadeira de balanço e sinto-o cada vez mais leve conforme a fumaça limoada desprende os arapuanos dos meus cabelos e solta os muruinos das minhas pernas. Respirar fica mais fácil. Quase durmo, mas lembro de me limpar antes de deitar na cama, então me afundo na banheira do quarto e esfrego toda a sujeira da viagem.

Ao dormir, a mesma voz masculina e ofegante.

Salve a montanha. Salve a vila.

Uma Judite mais nova, à flor da idade, não teria resistido à tentação e aproveitaria o sol risonho da manhã seguinte para escalar aquela montanha enevoada e resolver seus mistérios, mas eu sou uma Judite velha, com dor nas juntas, rejeitada por meu jovem Zedo. Então coloco minha capa enxuta e cinzenta nas costas, pego a maleta e vou conhecer tudo o que eu puder sobre a montanha com os moradores da vila.

Diferente dos gêmeos, são simpáticos, sou obrigada a destacar. Convidam-me à sombra gostosa de suas casas, seja de tijolos, seja de taipa, para tomar um café amargo e se perder em assuntos banais. Talvez eu tenha me perdido, pois só consigo abordar três famílias. Ah, a velhice!

O que descubro só confirma muito do que Zedo já havia me dito. Quinze anos atrás, Mata Branca não passava de uma mata branca como o nome supõe, com a seca afiando os galhos das umbuzeiros e rachando o leito do rio. Não dava pra plantar nada ali, o solo era duro demais, pobre demais, seco demais. Só os mandacarus resistiam até a chegada da pouca chuva, e quando as gotas chegavam, mal transformavam o rio em um riacho, um filete de lama sem peixe.

Além disso, Mata Branca era abençoada por roedores a cada inverno. Preás, ratos, cutias devoravam as poucas plantações de milho e feijão, traziam doenças estranhas aos moradores, mijavam e cagavam na água do gado… e da gente. Um inferno!

Até que uma mariposa, um dos mestres do mosteiro, se solidarizou com Mata Branca e veio morar ali. Fez o possível para diminuir a seca com o conhecimento que tinha a respeito dos luminantes. Encontrou um olho d’água e cultivou lampreanos, para depois canalizar a água crescente ao leito seco do rio. Enfiou quartzos rosa na testa de espantalhos a cada início de inverno para afastar os trinantes, e com isso o sol tórrido da seca. Deixou sapinos à sombra dos juazeiros para atraírem chuva com seus cantos.

E o inverno finalmente veio todo ano. A seca virou estiagem. Puderam plantar, e embora os ratos ainda insistissem em comer quase tudo antes da colheita, era o suficiente para que os moradores tivessem o que comer.

Com as chuvas, o rio de seiva terrena se acendeu nas raízes da montanha. Árvores, arbustos, cipós brotaram entre os lajeiros. A montanha enverdeceu, atraiu periquitos, azulões, saguis… Logo o rio de seiva celeste da copa da montanha pôde tocar o regenerado rio de seiva terrena a cada amanhecer, atraindo uma diversidade de luminantes. Por causa deles, o mestre ergueu sua casa na montanha, para preservar a bem-aventurança da vila e evitar qualquer desequilíbrio. Isso tudo eu já sabia com Zedo.

O que Zedo não me contou era que o mestre havia sido encontrado morto cinco anos depois de chegar em Mata Branca. Não havia nenhum mestre me chamando ali.

E o desequilíbrio não se rompeu com sua morte.

Por causa do pouco que os habitantes da vila puderam me informar, tenho que aguentar meus joelhos doloridos e ir para a montanha no dia posterior, logo de madrugada, quando sua névoa de prata se maquia com fios de ouro. Em vez de levar a maleta, prendo dois bornais no cinto, um de cada lado. Não quero me atrasar mais do que já me atrasei.

À beira da estrada, tocas de aranha piscam com gotas de chuva em suas teias. Galos-de-campina saltitam nas juremas. Lavadeiras se banham nas poças barrentas. Anuns pretos caçam grilos escondidos no milharal. Três meninos descalços procuram quartzos num riacho ao lado. Todos voltam os olhos para me ver passar com minhas alpercatas de couro pesadas de tanta lama. Parecem zombar de mim que não sou capaz de voar, nem me divertir.

Por sorte consigo carona numa carroça com um senhorzinho, de olho cego pela catarata, e alcanço a montanha ainda cedo. Os periquitos comemoram minha vitória no alto dos mandacarus. O velho me deixa em um lajeiro molhado, uma ilha cinzenta no mar de malvas amarelas, onde sento-me para descansar e sentir a seiva sob a terra.

A seiva pulsa como uma artéria, um rio dourado que corre em direção à montanha, onde ascende e toca o rio celeste numa bolha de verde vívido. Posso ver os luminantes planando ao redor da bolha, se alimentando de seus respingos de luz. Mariposas vão aonde há luz, por isso, respiro fundo e volto a andar atrás deles.

Confirmo que se trata de um refúgio, ou melhor, tornara-se um refúgio, um oásis para várias espécies de luminantes. E por causa deles, plantas e animais podem viver serenamente, a maioria pássaros, transformando o oásis em um paraíso de cores. No sopé, golinhas assobiam alegres nos galhos floridos dos umbuzeiros. O laranja dos concrizes se destaca no verdor espinhoso dos juremais. Azulões machos procuram fêmeas entre as flores brancas dos angicos, enquanto o cinza das gatinhas se perde nas catingueiras — apenas seu miado revela sua presença delicada. Almoço cuscuz com charque ao som de tantos passarinhos que logo me sinto disposta a subir ainda mais a montanha.

E mesmo com o sol forte da tarde, chove. Coberta pelas copas verdejantes, eu mal vejo a chegada das nuvens. Mas passa rápido, vira apenas um chuvisco refrescante. O nevoeiro volta, escorrendo pela montanha de cima a baixo. Fico novamente intrigada — e com frio. Continuo a subir.

As árvores diminuem conforme a altura da montanha. Lajeiros se tornam frequentes, enfeitados com macambiras e coroas-de-frade. Com o terreno cada vez mais íngreme, quebro um galho de marmeleiro e o uso como bengala. Minhas pernas já estão coçando de tanto se arranharem nas malvas quando reparo jitiranas floridas enraizadas nos troncos das árvores.

De fato, o refúgio não parece tão equilibrado quanto pensei. As flores roxas e afuniladas estão em todo lugar que olho, até mesmo nos lajeiros, sempre molhadas pela neblina da montanha. É um indicativo de excesso de vermantes. Para confirmar, cavo o solo com o galho de marmeleiro e os encontro faiscando azuis nas raízes das jitiranas. Logo rastejam para dentro da terra ao sentir a luz do sol chegar. Vermantes e pássaros demais, roedores de menos… Onde estava o equilíbrio do primeiro mestre no fim das contas?

Olho para o topo da montanha, onde a neblina é ainda mais espessa. Vermantes não são um bom sinal, imagine seu excesso. Talvez algum encorpado noturno os deixou, quem sabe o mesmo que traz a neblina. O sol já está baixo. Eu não vou arriscar passar a noite ali sem ter certeza do tipo de encorpado, então dou a volta. Haviam relatos de pessoas devoradas por essas criaturas, inclusive mariposas. Decido que vou ao topo no próximo dia.

Mas um grito me para assim que chego às partes baixas da montanha. Quero-queros fogem alarmados sob as nuvens avermelhadas. O grito, posso notar, vem do oeste, em um canto sem neblina, mas com um exame negro de perturbados se movendo sobre as árvores e dançando enlouquecidos no meio do sol. O grito se repete, arfante, cada vez mais agudo. Tenho certeza que é uma criança.

Desesperada, corro na direção do sol poente. O sopé da montanha é menos íngreme, com poucos espinhos para me atrasar, então alcanço o local dos perturbados rapidamente. Eles giram no ar sobre os mandacarus, barulhentos, com a forma dos periquitos que saudaram minha chegada. Não dá tempo de queimar tabaco. Por isso, abaixo a cabeça para não me notarem e ando curvada à procura da criança.

Encontro jitiranas queimadas no chão, no entanto, ninguém à vista. Suponho que tenha se escondido, então me afasto do céu salpicado de perturbados e caminho ao redor, procurando qualquer sinal, alguma pegada, uma marca de sangue, qualquer coisa.

Acho um cavalinho de madeira caído ao lado de uma barriguda. Toco meu ouvido no tronco, tentando escutar alguma batida de coração lá dentro, mas os pertubados estão barulhentos demais. Não escuto nada. Ainda assim, abro um dos bornais e tiro o prato de barro. Encho-o com água e açúcar e deixo-o sob o tronco da barriguda. Como esperado, os chupa-doces começam a sair de dentro da árvore.

Têm a forma de beija-flores e tesourões, mas suas plumas cintilam douradas e se desprendem como pó. Eles deixam o tronco da barriguda e pousam no prato para beberem a água açucarada. Em resposta, a barriguda abre seu ventre. Uma criança escorrega da abertura e cai no chão, encharcada. Ela tosse para tirar a água dos pulmões.

Dou tapinhas em suas bochechas. Elas se avermelham. A criança está bem.

— Como veio parar aqui? Onde você mora? — pergunto.

A criança se levanta e sorri. Tem os dentes pequenos, bem como o nariz. Abre uma das mãos e estica os cinco dedos.

Cinco anos?, penso. Não é a sua idade que eu pergunto. Talvez ainda esteja confusa por ter sido capturada pelos chupa-doces.

— O que estava fazendo ali? — Aponto para os perturbados. O enxame já se dissolve, acalmando-se conforme a luz vermelha do sol se atenua. Ela devia ter se assustado com os perturbados e corrido pela montanha. Deu azar de ter se deparado com uma barriguda infestada de chupa-doces. Se eu não aparecesse, ela ficaria dormindo no ventre da árvore até seu corpo se dissolver.

A criança pega o cavalinho de madeira e não responde nada. Mostra a língua, não por maldade. Parece nem ter notado. Reparo seus olhos afastados, o rosto chato. Confirmo minhas suspeitas ao tocar sua nuca. É bem fofa.

Um filho de gato-do-mato.

Muitos aldeias abandonavam crianças assim. Diziam que nasciam quando um gato-do-mato lambia as pernas de uma grávida, que tinham que abandoná-los nas brenhas para serem cuidados pelos verdadeiros pais. Tenho pena da criança. Se é garota ou garoto eu ainda não sei. Também não sei se Mata Branca é uma dessas aldeias ridículas. Mas a noite está chegando, a neblina se adensa. O encorpado certamente aparecerá. Decido levar a criança comigo para a vila.

Seguro sua mão, e ela me segue sem hesitar, cavalinho de madeira na outra. O crepúsculo pinta o céu de roxo profundo quando deixamos a montanha cada vez mais enevoada. A estrela d’alva cintila onde antes esteve o sol. Garças partem para dormir nos galhos das imburanas. Sem luz, o rio de seiva celeste se dissolve e os luminantes se acalmam, ficaram mais lentos, até serem totalmente engolidos pela neblina.

Assim que a noite cai, tiro um pequeno lampião do bornal e sigo com a criança entre os matos escuros; ela não fala nada o percurso inteiro, e eu não pergunto muito. Eu quero observar a natureza ao redor, que à noite me encanta de uma maneira assustadora. De vez em quando nos deparamos com os olhos faiscantes de algum animal noturno. Reparo um bando de porcos selvagens passeando em direção à montanha. O grito cortante de uma rasga-mortalha me faz parar assustada, e a criança sorri com seus dentes pequenos e a língua de fora.

Ela parece acostumada a andar à noite, e tenho certeza de que já conhece o lugar, pois aponta para o lajeiro onde eu sentei para sentir os rios de seiva. A lua clareia as rochas, tão frias e molhadas, com um brilho cinzento férreo. Só consigo subi-las andando de quatro para não escorregar. A criança, não. Escala em pé despreocupadamente, o cavalinho sempre na mão. Mas ao chegarmos ao topo, ela se senta, tonta, igual aos outros filhos de gato-do-mato. Percebo que ela só subiu em pé para se exibir.

Logo escuto um chocalho, tão baixo e etéreo que acho que é coisa da minha cabeça. Mas se repete, distante. Vem da montanha com seus rios de névoa.

— Escutou isso? — pergunto para a criança.

Pela primeira vez ela me responde de forma coerente. Abaixa a cabeça duas vezes, um aceno de sim.

Fito a montanha, em busca de alguma coisa curiosa. Não vi nenhum sinal de cabras ou gado naquela região. De humanos, apenas uma fazenda de palma pra onde o velho da carroça se dirigira depois de me deixar. Talvez fosse o encorpado, mas o som do chocalho logo se perde no vento. Fico frustrada. Voltarei ali com certeza para conferir melhor as coisas.

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Brazilian pharmacist in loved with History, Fantasy and Ecofiction. Author of The Blood of the Goddess. I write about nature in poems and fantasy stories.

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Paulo Moreira

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