Ellie sentada com abraçando os joelhos no interior de um prédio abandonado, com o chão cheio de grama. Tess está de cócoras à frente dela.
Ellie e Tess em The Last of Us.

O que é mais belo, o que podamos ou o que deixamos crescer?

Paulo Moreira
3 min readFeb 4, 2023

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Foi preciso uma pandemia dizimar a humanidade em The Last of Us para a natureza tomar conta, ou melhor, se restaurar. O fungo, que realmente existe, mas que graças a Deus só infecta formigas (e eu agora fiquei com pena das coitadas), se espalhou rapidamente, usando os humanos como hospedeiros.

Sem nós, os “donos da casa”, não há ninguém para cuidar das plantas do jardim e elas acabam crescendo, e crescendo, e crescendo. Já já a trepadeira toma conta do prédio inteiro e os sapos se reproduzem na piscina do hotel.

A natureza volta.
O cenário, ainda apocalíptico, fica belo.

Acho bobo dizer que a natureza volta para algo, ou invade algo. Ela está aí, ao nosso redor, quer você esteja vendo o pôr do sol numa canoa no rio Amazonas ou no trânsito parado respirando a bendita fumaça dos caminhões. O que volta é nossa percepção dela, de que ela existe, de que somos ela e interagimos com ela.

O que volta em The Last of Us é a percepção de uma natureza selvagem. E é belo, é legal imaginar como seria essa invasão, ver alterações em cenários tão conhecidos. Não à toa filmes apocalípticos sempre nos apresentam algum ponto turístico sendo destruído ou em ruínas. Ver o mundo de uma nova forma, com os olhos de outra pessoa, nos atiça a curiosidade. E a arte tem esse poder, não é incrível?

Quando criança eu matei aula pra entrar num cemitério abandonado. Não consegui. Sempre fui imaginativo demais, e imaginação fértil abre espaço para os mais terríveis criaturas, como bruxas que ressuscitam os mortos e colam suas cabeças cortadas…

Mas tive coragem pra olhar por cima do muro. Tudo estava coberto por capim seco, carrapicho e até urtigas. Nem parecia um cemitério, eu mal podia ver as cruzes. Era um terreno abandonado.

Meu medo não se aliviou. Eu sabia que tinha corpos por baixo de tanto mato. Mas as urtigas floresciam, tímidas flores brancas despontando sobre os pelos urticantes. Havia beleza onde eu sentia medo. E a sensação de que a natureza estava pouco se lixando para nós mortais.

Como em The Last of Us, o que cresceu ficou belo.

Mas a poda também é bela, e por vezes necessária.

Estava esperando o ônibus em Natal quando reparei samambaias crescendo no muro de uma casa, bem pequenas, quebrando o cimento. Tinha musgo também, indicando que o sol não batia muito ali. Era pouco, por isso minha imaginação de criança no corpo de um adulto fez tudo crescer.

Foi bonito imaginar o muro inteiro cheio de samambaias, sentir o cheiro úmido de barro molhado, mas logo caiu a ficha de que se tudo aquilo crescesse demais, o muro já tão acabado desmoronaria via abaixo e a rota do ônibus seria interrompida.

Árvores crescidas destroem a calçada com as raízes ou caem durante as tempestades. A gente vê isso sempre.

E se um jardineiro não tirasse as samambaias, mas as impedisse de crescer tanto?

Podasse sua selvageria.

Logo imaginei uma cidade onde todos eram um pouco jardineiros. Os telhados dos prédios cheios de horta, passarelas nas ruas enfeitadas com trepadeiras, árvores criando túneis com seus galhos, bebedouros para beija-flores a cada esquina. Tudo bem cuidado, harmonioso.

A humanidade não precisaria ser destruída para gerar beleza. A humanidade seria agente da beleza.

Seríamos Nabucodonosor II e nossa Babilônia, um Jardim Suspenso.

Sairíamos da distopia catastrófica para uma utopia venturosa.

Já tinha escrito algo parecido em O Sacrifício do Mestre Montanhês, onde um mestre traz as chuvas de volta a uma região seca, enchendo-a de passarinhos e de flores. Mas esse conto se baseia na amargura. A própria palavra “sacrifício” no título já revela que a beleza tem seu preço.

Há mais toques de distopia em mim do que de utopia. Amo os filmes de Miyazaki, mas também adoro Dmitry Glukhovsky, e vivo onde grandes projetos para trazer água ao povo enterrará rios na areia, onde usinas iluminam cidade expulsando e matando povos tradicionais.

Miyazaki me faz o cafuné necessário para eu dormir em paz. Mas Dmitry dá o soco necessário no meu estômago para eu despertar. Por isso, talvez eu não consiga escrever algo focado só na beleza.

Sempre haverá algo sombrio ou duvidoso como os cadáveres dormindo sob as urtigas.

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Paulo Moreira

Brazilian pharmacist in loved with History, Fantasy and Ecofiction. Author of The Blood of the Goddess. I write about nature in poems and fantasy stories.