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O Kishotenketsu japonês resumido e com exemplos

Criando narrativas sem conflito

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Pontos importantes:

  • Originado na China, de onde migrou para a Coreia e depois ao Japão.
  • Usado em poemas, romances, filmes de terror, animes (slice of life), mangás e quadrinhos.
  • Não é uma estrutura de atos, mas uma forma de transmitir uma cadeia de eventos e relacioná-los.
  • O conflito não é o que move a história, e por isso pode ser considerada uma “forma arrastada e chata” de contar histórias.

A interpretação dos caracteres japoneses estrutura os eventos:

起 (ki): “acordar”, ou introdução. São informações necessárias para o tema da história, que sem elas a história não funciona. Momento de prender o olho do leitor, despertar curiosidade. A palavra-chave é “mundo”.

承 (shou): “ser informado”, ou desenvolvimento. Considerado como o “verdadeiro início da história”. Momento de imersão do leitor, de sincronizá-lo com o protagonista. Em relação ao ritmo, se o Ki foi impactante, o Shou relaxa. A palavra-chave é “personagens”.

転 (ten): “mudança”, ou nova perspectiva. Muda-se o fluxo da história. Apresenta-se uma cena que dessoa da narrativa anterior. Pode ser considerado o “clímax” da história. Momento de agitar o coração do leitor ao oferecer uma mudança na narrativa. A palavra-chave é “surpresa”.

結 (ketsu): “enlaçamento”, ou organização. Apresenta-se a conclusão da história, unindo os eventos anteriores. É a impressão da história que fica gravada na mente dos leitores. Relaxa o Ten. A palavra-chave é “relacionamento”.

Em romances, esses eventos podem se mesclar ou se alongar de várias formas, pois não há uma divisão fixa como nos quadrinhos, onde podem ser separados por quadros. Isso vai de autor para autor.

Algumas formas de mesclagem e alongamento:

  • Encurta-se o início para apressar a chegada da nova perspectiva e alongá-la: KiShou + Ten + Ten + Ketsu;
  • Encurta-se o início para apressar a conclusão dos eventos e alongá-la: KiShou + Ten + Ketsu + Ketsu;
  • Alonga-se a descrição do mundo quando mais detalhes são necessários ou para atrasar a chegada da nova perspectiva: Ki + Ki + ShouTen + Ketsu.

Exemplos

Poema de Rai Sanyo (Wikipedia):

Ki: Filhas de Ittoya, em Honmachi de Osaka
Shou: A mais velha de dezesseis, a mais nova de quatorze
Ten: Ao longo da história, os daimiôs matavam com arcos e flechas
Ketsu: Mas as filhas de Ittoya matavam com o olhar.

Sakka no Mikata:

Ki (introdução): A protagonista Moriko Morioka é demitida do trabalho. Abalada, ela fica jogando online até que todas as suas economias se acabem.

Shou (desenvolvimento): Ela usa o avatar de um rapaz muito bonito e se diverte como uma criança. Conhece Lily, uma personagem virtual, com quem se encontra várias vezes e consegue mais amigos virtuais, sem perceber que sua amizade com a personagem evolui para amor.

Ten (nova perspectiva): Na verdade, Moriko e “Lily” já tinham se encontrado várias vezes no mundo real, mas nunca prestado atenção um no outro, muito menos relacionado seus avatares com os gêneros trocados.

Ketsu (organização): Moriko descobre que “Lily” é um homem e sente um desejo forte de conhecer ele no mundo real. Os dois se relacionam e a alegria de Moriko volta.

Fantastipedia:

Ki: Um garoto chega a um rio.

Shou: O garoto tenta em vão apanhar peixes com as mãos.

Ten: Noutro local, o vento arranca o chapéu de um homem e o joga no rio.

Ketsu: O menino usa o chapéu para apanhar peixes.

Comparação do Kishotenketsu com Narrativas com Conflito (Ocidentais) — Still Eating Oranges:

Sem conflito

Ki: Uma garota coloca a moeda na máquina de soda.

Shou: A garota recebe a lata de soda.

Ten: Um garoto sentado assobiando.

Ketsu: A garota entrega a lata de soda ao garoto e ele agradece.

Com conflito

1. Uma garota coloca a moeda na máquina de soda.

2. A lata de soda não sai.

3. A garota bate na máquina e a lata sai.

4. A garota recolhe seu prêmio.

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Brazilian pharmacist in loved with History, Fantasy and Ecofiction. Author of The Blood of the Goddess. I write about nature in poems and fantasy stories.

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Paulo Moreira

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