Capa do Conto Fuga de Ergenekom por Paulo Moreira

Fuga de Ergenekom

Carta da Décima Terceira Noiva sobre a Décima Terceira Tempestade

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Lembra, Arsena? Tudo começou com o anel. O sol descia enquanto papai dava forma àquele cobre vermelho, um anel de três aros fechados, com a cavidade para a joia ainda vazia. Papai não tinha a pedra necessária para unir os aros, mas eu a teria, logo a teria. Só assim poderíamos fugir, Arsena, minha querida e rebelde Arsena.

Eu fiquei sentada no banquinho atrás da vidraça da loja, as mãos unidas sobre o colo, entretida com o sol nos minaretes lá fora enquanto papai dobrava os aros do anel com as pinças. Quieta o tempo inteiro. E você, como sempre, ficou brincando de loba, uivando para as estantes das joias, rosnando para os manequins. Oh, querida Arsena! Meu peito dói com a doçura dessas lembranças.

Fui a primeira a perceber as nuvens, nuvens negras de alcatrão que engoliram todo o ouro do sol. Os zepelins ergueram voo antes que elas chegassem, zumbindo sobre os telhados da cidade, fugindo para longe com a luz dourada refletindo em seus balões. Um deles sobrevoou a loja, e você uivou para ele, eu lembro bem.

Só assim papai percebeu. Largou as pinças e me chamou. Obedeci, sempre quieta. Um exemplo de menina. Papai colocou o anel de cobre em meu dedo. Sua testa brilhava de suor. Lágrimas escorriam nas bochechas. Mas na boca, resplandecia um sorriso.

— Ninguém solta a mão de ninguém, capiche?

Peguei sua mão, Arsena. Tive medo de que a maciez de meus dedos os fizesse deslizar dos seus, mas você os apertou. Manteve-os firmes. Senti que se eu recuasse, sua pele áspera me conteria, suas garras de lobo se fincariam em minha carne, me segurariam como se eu fosse sua presa. Esperava por isso.

Então corremos.

Mãos dadas.

Papai ficou.

As nuvens cobriram todo o céu, trazendo a tempestade. Não demorou para que os ladrilhos da rua se enchessem de espelhos de água. Corríamos. Pisávamos céus chorosos, nossos rostos amarelando-se conforme as lâmpadas de sódio se acendiam uma a uma.

Os soldados nas cúpulas já estavam atentos. Vestiam-se de preto, o mesmo preto das nuvens de alcatrão. Eu não os veria se a lente dos binóculos de infravermelho não estivesse reluzindo tanto. Logo os minaretes começaram a gritar, as sirenes arranhando seus arabescos, arrastando-se entre os prédios arredondados de Ergenekom, se apertando entre as colunas esguias dos arcos, inundando as abóbadas azuis, caçando a décima terceira noiva sob os raios da décima terceira tempestade.

Paramos por um tempo para descansar. Estávamos encharcadas, quase afogadas com a água ao nosso redor, as roupas cada vez mais pesadas e grudentas. Então você grunhiu para mim. Com a mão livre, apontou para uma poça d’água no calçamento. Sorri, amedrontada. Dentro da poça, um cervo albino nos espiava com olhos incandescentes. O Cervo. Claro que você foi a primeira a percebê-lo, loba como era.

O animal deu a volta e desapareceu, para surgir em outra poça mais adiante. E continuou assim. Nós o seguimos de poça em poça, eu assustada com aqueles olhos vermelhos, e você encantada com aquela pelagem cintilante.

Invadimos o mercado. Tomates, nabos e pimentas boiavam das barracas submersas. Pães, bolos e bolachas entupiam os bueiros. Feirantes corriam desesperados para salvar o que podiam numa tragédia lamacenta, mas você sorria ao ver os ratos navegando barquinhos de papel. Para você, pequena Arsena, o mundo sempre foi uma brincadeira.

As sirenes continuaram a berrar. Os soldados desceram dos minaretes e vieram correndo, estilhaçavam o céu dos ladrilhos com botas de alcatrão. Não traziam cassetetes. Suas mãos firmavam-se nos Kalashnikov 7,62 milímetros. Todos em busca da décima terceira noiva. Corriam de casa em casa como formigas desorientadas, torcendo para não se afundarem nos lamaçais de piche e nunca mais serem achados.

Enquanto nós tínhamos um guia. Saltávamos tudo, graciosas como o cervo. Erro meu. Você era loba, Arsena, sempre loba, uma loba selvagem das montanhas. O cabelo grosso e bagunçado até a cintura. Pés descalços lambuzados de alcatrão. Uivava sorridente no lixo fedido, a língua de fora. Uma loba selvagem presa a mim. E eu presa a um cervo albino.

Estávamos longe quando as sirenes começaram a diminuir, passando de um berro faminto a um grito de lamúria. De mãos dadas, paramos à frente de um túnel, suas paredes fixas com cabos de madeira, cuja localização não ouso especificar, não ainda. O ar que saía lá de dentro era frio e molhado. E em suas sombras, o cervo albino reluzia, não como uma miragem de um poça, mas real, alto, imponente.

Continuei prendendo sua mão na minha, Arsena. Mas você rosnou para ele.

Ele veio para nós com passos leves, majestoso. Seus cascos não faziam nenhum barulho. Com uma mão, mostrei o anel em meu dedo. Com a outra, apertei você ainda mais forte. Ele farejou o cobre, inexpressivo. Os olhos vermelhos mal piscaram. Então, seus cifres se partiram, tornaram-se pó. Escorreram em volta do anel, moldaram-se numa semente que ocupou a cavidade da joia. Uma semente branca unindo os três aros vermelhos.

Estava feito.

O sol poente apareceu, dourando as cúpulas de Ergenekon. Dissolveu todas as nuvens de alcatrão. O cervo virou-se para o túnel e entrou com passos leves, orgulhoso.

— És minha agora. Larga a loba e me acompanha.

Fingi não ouvi-lo.

Fomos juntas, nós duas, de mãos dadas, mas ao chegarmos à entrada do túnel, o cervo voltou-se para nós.

— Casei contigo, e não com ela. Larga-a.

Você me puxou para o lado. Esticou o braço, soltou meus dedos. Continuou rosnando para o cervo. Sua mão deslizou, mas eu agarrei seu pulso. Prendi você com ainda mais força.

E permaneci. Respirei fundo. Dei dois passos à frente.

A face orgulhosa do cervo se converteu em fúria. Baixou a testa, como se fosse me espetar com cifres invisíveis. Eu parei.

— Não levarei uma loba comigo. Além disso, ela fede.

Imóvel, sem fala, espiei você, Arsena, minha rebelde Arsena, do emaranhado de seus cabelos duros até o alcatrão grudado em seus pés, antes que meus olhos se turvassem com as lágrimas e eu só pudesse ver o cervo albino à minha frente, seu pelo reluzindo como a lua cheia, seus olhos vermelhos reluzindo como sangue.

Tive medo.

E soube que você também devia ter.

Então larguei.

Deixei você para trás.

E você não resistiu.

Ou quem sabe você soubesse o que estava acontecendo. Talvez você soubesse que não podia ir. Que papai estava errado. Que não podíamos ir juntas. Que lobos não andam com cervos. Que lobos os devoram. Que nada daquilo era uma brincadeira.

Então se sacrificou.

Você me salvou, Arsena.

Entrei no túnel escuro com a luz do cervo em meus olhos. No fundo, a fenda faiscava em várias cores. Azul. Rosa. Verde. Pulsava como um coração vivo, mas era fina como uma fita, uma fita fosforescente tremulando ao vento. O cervo a farejou primeiro antes de atravessá-la. Eu fui atrás.

Era mais frio que o túnel. Senti como se o chão houvesse sumido sob meus pés. Na verdade, que tudo havia sumido. As paredes, as trevas, o sol, o cervo. A gravidade, o espaço, o tempo.

Você.

Tudo ficou para trás. Só havia o frio que congelava as lágrimas em minhas bochechas, que faziam meu rosto doer, o enrugavam.

Mas depois tudo se acalmou. As trevas voltaram. O cervo de luz também. E com ele, os fantasmas, crianças de alcatrão engatinhando ao redor de suas patas cintilantes. Uma delas veio a mim, crescendo cada vez mais quanto mais se aproximava. Com forma adulta lambeu minhas lágrimas, num gélido beijo dos mortos me consolou:

— Tu trazes a água e a semente, décima terceira noiva. Tua irmã não resistiria à passagem. Mas virá, num outro dia, num outro espaço, e trará consigo a terra. Portanto aguarda. Rega teu peito com esperança, teu cervo com carinho, e nossa árvore com fé.

E assim te espero, Arsena, minha selvagem irmã loba.

Para sempre. Com esperança, carinho e fé.

Do outro lado, a décima terceira noiva.

Todos os direitos de Fuga de Ergenekom reservados a Paulo Rogério Moreira da Silva, 2022.

Imagem e arte da Capa: Paulo Rogério Moreira da Silva, 2022.

Essa é uma obra de ficção. Nomes, personagens, organizações, lugares e situações são frutos da imaginação deste autor ou usados como ficção.

Qualquer semelhança com a realidade ou fatos reais é mera coincidência.

Todos os direitos reservados.

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Paulo Moreira

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