Capa do livro Os Portões de Roma, de Conn Iggulden.
Capa do livro Os Portões de Roma, de Conn Iggulden.

A Juventude de um Ditador

Resenha de Os Portões de Roma, de Conn Iggulden

Trecho favorito:

— Durante centenas de anos houve romanos parados aqui onde estamos. Esta terra é mais que simplesmente terra. Esta terra somos nós, o pó de homens e mulheres que se foram antes de nós. Vocês vieram disto e voltarão para isto. Outros caminharão sobre vocês e nunca saberão que estiveram aqui, tão vivos quanto eles. [...] Nosso povo estava aqui muito antes de haver uma cidade. Sangramos e morremos nestes campos em guerras há muito esquecidas. Talvez isso aconteça de novo, nas guerras dos dias vindouros. [...] Você está segurando história, garoto. A terra viu coisas que não podemos ver. Você está segurando sua família e Roma. Ela produzirá colheitas para nós, nos alimentará e nos renderá dinheiro, de modo que possamos desfrutar de luxos. Sem ela não somos nada. A terra é tudo, e para onde quer que você viaje no mundo apenas este solo será realmente seu. Apenas esta coisa preta e simples que você segura será seu lar.

Depois de ser encantado com a quadrilogia da Guerra das Rosas, deixei a Inglaterra e parti para Roma no primeiro livro publicado por Conn Iggulden: Os Portões de Roma, da série O Imperador. O livro foi a estreia na vida de escritor de Iggulden, tornando-o conhecido na ficção histórica e elogiado pelo mestre Bernard Cornwell.

O livro narra a juventude do futuro ditador Júlio César, e embora isso já seja suficiente para abrirmos as primeiras páginas, narra também a de seu futuro traidor, Marco Brutus. Os dois personagens se tratam como irmãos, compartilham a mesma casa, os mesmos sonhos: desejam se tornar soldados da fantástica e imortal Roma.

Mas logo de início percebemos que suas vidas trilharão caminhos diferentes. O pai de Caio é uma figura importante no Senado, e Caio terá que herdar sua terra bem como suas habilidades políticas. Enquanto Marco, sem mãe e nenhum parente vivo, precisa aprender a lutar para se tornar soldado de Roma, única forma de ascensão social possível a ele. O que une os dois é a arte da guerra, ensinada por seus tutores: Vepax, Trubruk e logo, logo o famoso gladiador Rênio.

Essas cenas de luta, tanto explicativas quanto visuais, foram as que mais me deixaram admirado. Li e reli as explicações, não porque eram difíceis de imaginar, mas para entender como Iggulden consegue ser simples tratando de algo complexo, como o movimento dos soldados no coletivo e dos corpos dos soldados numa luta individual.

A primeira parte do livro começa bem lenta, talvez maçante, pois é bastante explicativa, com os adolescentes Caio e Marco aprendendo a lutar e detalhes que não devem ser ignorados na política de Roma — se você conhece um pouquinho da história da cidade, sabe que tem sangue derramado aqui e ali.

Mas é a partir da segunda parte que as coisas esquentam, quando o pai de Caio é morto em intrigas políticas, sua propriedade é tirada, e Caio e Marco se veem adotados pelo tio Mário, mais uma figura importante no Senado e na guerra política de Roma.

É aí que os “irmãos” são separados. Caio permanece em Roma, aprendendo a ser o “diplomata ditador” com o tio Mário, enquanto Marco se torna um soldado romano e parte para lutar na Grécia, vivenciando a guerra em campo e aprendendo a ser líder com o gladiador Rênio. E embora distantes um do outro, os dois desejam se vingar do assassino de seu pai, Conélio Sila, que também é inimigo político de Mário.

Tenho que confessar que, mesmo que a política romana seja algo interessante de ser lido, foi a vida de soldado de Marco que mais me cativou, tornando-o, para mim, um personagem melhor que Caio.

Se não existisse Alexandria.

Alexandria é uma jovem escrava, que me conquistou inicialmente só por isso mesmo, ser uma escrava. Simplesmente gosto quando uma história não foca em apenas uma camada social, geralmente a dos mais ricos, e histórias de escravidão e liberdade me inspiram. Alexandria parecia estar ali para dar uma intriga romântica entre os jovens Marco e Caio, que são apaixonados por ela, ou só querem usá-la, afinal ela é uma escrava.

Mas, da mesma forma que a vida dos irmãos fica mais interessante após a morte do pai, a de Alexandria fica mais profunda, saindo um pouco da área romântica.

Alexandria quer ser livre, e ela luta por isso em Roma, usa sua lábia para economizar e assim guardar dinheiro para comprar sua liberdade. Mesmo com poucas cenas dela sozinha, fazendo o que quer, e mesmo que eu a considere um “spin off” da narrativa original, tentar adivinhar o destino de Alexandria me manteve na leitura bem mais que Caio e Marco, talvez também por eu já saber o que Caio e Marco irão se tornar, uma vez que são personagens históricos.

E se a segunda parte era quente, na terceira as coisas fervem. É quando tudo vai por água abaixo (ou fogo). Não pretendo dar spoiler pesados nesse review, mas se você sentir que a narrativa está maçante, principalmente na primeira parte, que eu acho que só os os aficionados por história de guerra como eu irão gostar, saiba que Roma vai cair em algum momento, e saber dessa queda pode te mover adiante.

É magistral a forma que Conn Iggulden descreve essa guerra, as cenas da invasão, o ataque dos soldados, e também a defesa, porque nesse momento temos o privilégio de ver a batalha pelos dois lados. Não é só quem gosta de táticas de guerra que vai curtir. Caos é estimulante.

Mas em relação à quadrilogia A Guerra das Rosas, considero Portões de Roma mais lento e com personagens não tão profundos assim. É o primeiro livro do autor, relevamos, e meu gosto pessoal contamina essa review. Adoro personagens femininas, que eu tinha de vez em quando em Guerra das Rosas, mas que nos Portões só tive com Alexandria. E o conflito das Rosas me lembrava muito A Guerra dos Tronos, tanto pelo cenário medieval quanto pelo Martin ter se inspirado nela, e eu adoro Martin.

Portões de Roma também peca em descrições de cenário, que eu adoraria imaginar, embora as descrições de luta sejam maravilhosas. Se você conhece o jeito de Iggulden de escrever, sabe que ele é bem objetivo. A maior parte do tempo isso não é um defeito, mas eu senti falta de emoções nos personagens em cenas que poderiam ter uma certa profundidade, como mortes, casamentos, separações e ferimentos, sim, ferimentos.

Iggulden descreve muito bem ferimentos, e tem uma cena de cirurgia fantástica, mas foi tão objetivo que eu não senti tanto o que suponho que ele queria repassar, como repulsa, dor, ou medo. Foi interessante de ver, e só. O que não aconteceu com A Guerra das Rosas, talvez porque aqui é uma doença que move o conflito.

É coisa de autor, cada um tem seu jeito de escrever.

No mais, se você gosta de histórias de guerras, personagens históricos ou jornadas de irmãos, leia Os Portões de Roma, primeiro volume da série O Imperador.

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Brazilian pharmacist in loved with History, Fantasy and Ecofiction. Author of The Blood of the Goddess. I write about nature in poems and fantasy stories.

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Paulo Moreira

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